helena ramos

Fotógrafa

Helena Ramos

Workstation

Helena Ramos (1999, São Paulo, Brasil) vive e trabalha na cidade onde nasceu. Desenvolve investigação nas áreas das artes, fotografia, Moda, arquitetura e design, cruzando diferentes linguagens e meios. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Escola da Cidade (2023), realizou projetos nos campos da imagem, do design gráfico e expositivo. Entre 2020 e 2022, desenvolveu Arquitetura do Vestir, articulando investigação, peças vestíveis e fotografia. Publicou textos no ArchDaily, Paprika! (Yale) e na revista da Escola da Cidade. Em 2025, venceu o Prémio Novo Banco Revelação e apresentou A Vida das Abelhas, com curadoria de Ricardo Nicolau, em Serralves. Em 2026, apresentou az-zahr, na Kubik Gallery, e Antônio, na Galeria Quadra, e participou na coletiva Loopinpindorama, na Martins Monteiro.

Ao longo do tempo, uma prática vai construindo um vocabulário próprio. Que elementos, questões ou referências reconheces hoje como estruturantes da identidade do teu trabalho?
Acredito que, na minha prática, existam alguns pilares temáticos recorrentes, como arquitetura — nada mais justo, já que é a minha formação académica —, Moda, natureza e vida noturna. Já operei muito dentro desses diferentes ambientes e sinto que parte do meu trabalho consiste justamente em colocar temas tão distintos em pé de igualdade, pois o tipo de abordagem fotográfica não muda dependendo dos temas. Eles carregam elementos visuais que aparecem de forma recorrente como: texturas, corpos fragmentados, estampas, padrões e superfícies que refletem a luz, manifestação de luz e cor de maneira mais abstrata.
Além da variedade dos temas, acredito que a maneira como penso a própria fotografia também seja estruturante no meu trabalho. Nesse sentido, Wolfgang Tillmans é uma referência importante para mim pela maneira como pensa a fotografia como uma experiência espacial e conjunta. Através da expografia, imagens distintas estabelecem relações entre si e com o espaço, fazendo com que a exposição e a forma de expor também seja o trabalho.
Nan Goldin é outra referência importante, inicialmente pela proximidade com a temática da vida noturna e por ter conseguido retratar momentos tão efervescentes mas, principalmente, por tornar público um universo extremamente íntimo. Goldin faz com que cada pessoa que entre em contato com aquelas imagens possa relacionar-se com elas de maneira única e pessoal, acho que isso é essencial num bom fotógrafo.
Por outro lado, referências como Hudinilson Jr., Claudia Andujar e George Love aproximam-se de outro aspeto importante da minha prática mais atual: a experimentação com a própria imagem e os seus processos de reprodução. Procuro desvincular a fotografia apenas do momento da captura, expandindo-a para o que pode ser explorado a partir da sua reprodução, recortes, colagens, apropriações. Hoje, o laboratório e os processos de ampliação são, para mim, espaços de experimentação e fazem parte da construção da imagem tanto quanto o ato de fotografar.

 

PRIORITY parte da necessidade de estabelecer critérios num presente marcado por uma enorme disponibilidade de imagens, referências e possibilidades. Como te relacionas com essa abundância e como preservas a singularidade da tua perspetiva dentro dela?
A minha prática teve início na fotografia analógica. Comecei a fotografar com uma câmara que era da minha mãe, porque era a câmara que tinha em casa. Desde então, nunca parei. Não me limito apenas ao uso do 35mm, também utilizo câmaras digitais e recorro ao digital em situações em que busco o controle absoluto sobre a imagem, geralmente dentro do estúdio.
Sendo assim, a prática analógica virou parte do meu dia a dia e acredito que tenha moldado muito a minha maneira de fotografar. Tenho 36 cliques e preciso fazer a imagem acontecer ali. Essa limitação faz com que eu seja mais precisa na hora de apertar o botão. Além disso, como artista, o analógico possibilitou-me expandir a minha pesquisa para o universo do laboratório. Atualmente, tenho focado parte da minha prática em processos experimentais com a ampliação manual colorida, o que abre ainda mais possibilidades de experimentação.
Vivemos na era das imagens e somos bombardeados por elas diariamente. Nesse contexto, acredito que a limitação própria do analógico e os seus processos ajudam-me a preservar o olhar dessa saturação imagética.
Por outro lado, quando penso na abundância de referências que temos hoje, vejo isso de uma maneira mais otimista. Numa entrevista, perguntaram a Alexa Chung qual era a época que ela mais gostava (isso em relação ao universo da Moda), e ela respondeu que era o presente, justamente porque, hoje, podia misturar algo dos anos 20 com o dos 60 e com algo contemporâneo. Concordo com essa ideia. Gosto da possibilidade de acessar a referências de épocas, lugares e universos completamente distintos, colocar tudo isso em um “liquidificador” e ver no que dá. Acho que a singularidade pode surgir justamente da maneira particular como cada um mistura e transforma essas referências.

 

Ao receberes carta branca para fotografar a Lisboa Fashion Week, o que te interessa procurar num território que não pertence necessariamente ao universo habitual da tua prática?
É uma grande oportunidade fotografar a Lisboa Fashion Week, justamente por ser um ambiente que me apresenta algo novo, diferente dos espaços que já ocupei, frequento e dos quais participo. Penso que esse contato com uma cena e um universo da Moda contemporânea, que não conheço, será muito enriquecedor e uma maneira de expandir o meu universo visual e imagético.
Dito isso, ao entrar num território desconhecido, busco coisas que despertem a minha curiosidade. Muitas vezes, interesso-me pelo que está  “fora do lugar”: objetos, gestos ou texturas que criam uma espécie de tensão com o contexto em que estão inseridos. Também me interessa a possibilidade de me deslocar da minha prática convencional. Sair da minha zona de conforto é mais fácil numa situação nova, que abre espaço para a experimentação e também para trabalhar abordagens recorrentes no meu trabalho de uma forma distinta.